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Crowdfunding e o Caso Wildman

Crowdfunding e o Caso Wildman

Durante este fim-de-semana recebemos um email de um leitor que nos aconselhava a darmos mais algum espaço a projetos Kickstarter. Nele o leitor apontava o caso Wildman como uma temática relevante e que merecia uma atenção especial. Eu concordo e enquanto simultaneamente vou escrever um pouco sobre isso, vou também aproveitar para esclarecer as razões pelas quais nós não publicamos mais artigos sobre novos projetos que recorrem ao “crowdfunding“.

Aqui no Gaming Portugal nós gostamos do “crowdfunding” e de facto ele tornou-se num excelente método de se conseguir arranjar fundos para um projeto. Por exemplo, hoje é possível financiar totalmente um videojogo através de uma campanha no Kickstarter, com o bónus de ela permitir também uma grande interação com os gamers e consequentemente aumentar as probabilidades da companhia conseguir criar o jogo que vá ao encontro dos seus desejos.

Há que reconhecer que o “crowdfunding” está na moda e o Kickstarter é um dos websites mais falados do momento, por lá nós encontramos um pouco de tudo, desde projetos entusiasmantes que conseguem financiamento, passando por alguns que dificilmente merecem um apoio em massa, culminando naqueles que de facto têm potencial mas que por alguma razão acabam por fracassar.

O caso Wildman tem sido alvo de muita atenção, primeiro porque se trata de um projeto da autoria do Chris Taylor, o senhor que criou a Gas Powered Games e que esteve envolvido em jogos míticos como é o caso do Total Annihilation, ou a saga Dungeon Siege.

Wildman é um RPG com elementos de estratégia em tempo real com o qual o Chris Taylor decidiu tentar a sua sorte no Kickstarter. Até aqui tudo bem, aparentemente eles têm um bom conceito em mãos e se juntarmos a isso a sua experiência eu acredito que as probabilidades para conseguirem criar um bom videojogo até são bastante boas.

Mas o problema com Wildman não reside no seu conceito, mas sim no facto da Gas Powered Games ter colocado recentemente uma grande parte da equipa de desenvolvimento em “layoff“, porque receia que o projeto não atinja a meta de financiamento proposta de cerca de um milhão de dólares (mais ou menos 800 mil euros). Pior do que isso, se por acaso o Chris insistisse em manter a equipa e o projeto não fosse bem sucedido, ele seria mesmo obrigado a extinguir a companhia.

Inicialmente a notícia deixou-me um pouco triste mas levou-me também a realizar uma questão:

Será prudente depender tanto do “crowdfunding” ao ponto de colocar em causa empregos e o futuro de uma companhia?

É claro que a resposta só pode ser não. Pelo contrário a dependência do “crowdfunding” nunca deveria chegar a esse ponto e aliás, talvez nunca devesse ser uma dependência. Por outras palavras e idealmente, o lançamento de um videojogo nunca deveria ser posto em causa pela não obtenção de um financiamento coletivo ( crowdfunding em inglês).

O problema é que nós nunca sabemos a história toda e eu arrisco-me a dizer que o Chris Taylor não comunicou o que se estava a passar da melhor forma. Na sua explicação ele revelou que os riscos de continuar com a equipa de desenvolvimento eram demasiado altos e ele não estava disposto a jogar com as suas vidas. No final ele lançou um desafio a todos os que apoiaram o jogo e perguntou-lhes se deveria continuar com a campanha do Wildman ou abandoná-la.

Toda a declaração transmite-me a mim uma certa inquietação, porque como já disse anteriormente, a ideia de “colocar todos os ovos no mesmo saco” parece ser demasiado absurda porque se alguém deixar cair esse saco, lá se foram os ovos todos! Mas a impressão com que ficamos é que de facto foi isso que aconteceu e subitamente muitos sentem uma necessidade de apoiar o jogo não pelo seu potencial, mas sim para salvaguardarem empregos que nós sabemos muito bem o quão valiosos são nos dias que correm.

Tudo isto é francamente estranho e deve levar muitas companhias a repensarem as suas estratégias de financiamento. É que o “crowdfunding” é uma excelente ferramenta. mas adoptar uma estratégia do “tudo ou nada” nunca pode ser uma boa ideia.

Finalmente chegou a altura de explicar porquê que nós não publicamos muitos artigos sobre projetos Kickstarter aqui no Gaming Portugal. É importante realçar que nós também somos um projeto totalmente independente, como tal somos obrigados a lidar com certas limitações e a definir prioridades. Gostaríamos de ter a capacidade para abordar todas as temáticas relevantes no mundo do gaming mas neste momento isso é impossível, ou melhor, é impossível de fazermos mantendo a qualidade que desejamos.

Nesta definição de prioridades e de forma a prestarmos um melhor serviço aos nossos leitores, nós tentamos concentrar as nossas atenções em títulos que já se encontram em desenvolvimento e onde existe uma certeza no lançamento, em videojogos que possuem um trabalho sólido por detrás e claro, naqueles que estão disponíveis no mercado e já se podem jogar.

Paulo Figueiredo

Paulo Figueiredo

Editor em Gaming Portugal
O Figueiras é um elemento fundamental do Gaming Portugal e a figura mais respeitada da equipa. A sua vida atarefada e cheia de responsabilidades impede-o de acumular uma posição de maior destaque, embora mesmo se tivesse essa oportunidade o mais certo era ele recusá-la. A sua participação no Gaming Portugal é motivada principalmente pelo gosto por gaming e dá-lhe um prazer especial saber que nesta casa a “independência” é uma característica definidora.
Paulo Figueiredo

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