PC Reviews

Vagrus: Uma aventura difícil, lendária e memorável

blank

Vagrus é um RPG muito focado na narrativa com exploração de mundo aberto e elementos fortes de estratégia. O jogo proporciona uma aventura épica e imperdoável num mundo pós-apocalíptico cheio de histórias e personagens intrigantes.

Primeiro é importante esclarecer que estamos perante uma experiência que faz da dificuldade uma característica definidora. Isto significa que em Vagrus a derrota é frequente quer seja por erros de estratégia cometidos por nós; resultado do ambiente inóspito no qual decorre toda a história ou simples e puro azar.

No jogo nós vestimos a pele de um “Vagrus“, o líder de uma expedição composta por uma caravana e um grupo de pessoas que, por diferentes razões, necessitam de viajar pelos perigosos “The Riven Realms“.

Com uma componente forte de exploração de mundo aberto nós teremos não só de explorar, como lutar, realizar negócios e fazer um pouco de tudo para garantirmos que conseguimos sobreviver mesmo quando tudo parece estar contra nós.

Uma experiência focada na história

blank

Vagrus é um jogo que aposta forte na história e nas suas personagens. É uma aventura por um mundo pós-apocalíptico que é também muito dependente da leitura. Aliás ele é, em grande parte, um livro num formato de videojogo e a história é-nos contada precisamente através de leitura e consulta. Ler é de facto uma das actividades mais frequentes nesta experiência e escusado será dizer que o gosto por esta actividade é um requisito.

Se porventura gostas de ler e dominas a língua inglesa, então prepara-te para uma história sólida e muito envolvente. Vagrus proporciona uma viagem fascinante por um mundo que é simultaneamente imperdoável e belo e faz da narrativa um dos seus pontos mais fortes.

Nós vestimos a pele de um “Vagrus” que é essencialmente o líder de um “Comitatus” que por sua vez é uma espécie de caravana composta por um grupo de viajantes. Viajar pelos “The Riven Realms” não é de todo uma tarefa fácil e é por essa razão que um vagrus nunca se aventura numa viagem sem guerreiros ou batedores na sua companhia. Aliás é esperado que todos os integrantes de um “Comitatus” estejam dispostos a lutar e sejam capazes de “carregar o seu peso” mesmo que não sejam mais do que meros passageiros.

Ao vagrus compete liderar a viagem, gerir todos os recursos, pagar à tripulação e no fundo garantir a sobrevivência de todos os elementos do “Comitatus”. No entanto a natureza imperdoável do ambiente inóspito que nos rodeia, a sorte (ou falta dela…) e da própria jogabilidade torna o nosso trabalho num desafio considerável. Este não é um jogo fácil e isso é óbvio a partir do primeiro momento que começámos a jogá-lo.

O peso das personagens, o peso das nossas decisões

blank

O progresso leva o seu tempo porque há muita informação para ser processada sobre o mundo e toda a história que resultou num Apocalipse levado a cabo pelos deuses. O Universo deste jogo é extenso, por vezes complexo e povoado por personagens muito interessantes.

Enquanto “vagrus” teremos sempre alguns elementos chave no nosso “Comitatus”, com o tempo vamos conhecendo a sua personalidade e habilidades e aprendemos a utilizá-las em benefício do grupo. Há também muito diálogo, muitas questões e respostas que têm influência no desenrolar da história.

Gerir o “Comitatus” vai muito além de simplesmente garantir as necessidades básicas de sobrevivência, pelo contrário é necessário tomar as melhores decisões para o grupo mesmo que por vezes elas sejam odiadas por esse mesmo grupo e causem discórdia.

O pensamento estratégico tem de estar sempre presente, uma má decisão pode ser um impulso determinante para a revolta e quando o grupo se vira contra nós, o resultado é quase sempre fatal. E sim, para além dos inimigos que vamos defrontando ao longo da viagem também é importante garantir que os mesmos não se formam no seio do “Comitatus” que lideramos.

Muitos encontros memoráveis

blank

Ao longo da aventura vamos tendo inúmeros encontros memoráveis, alguns deles resultam em batalhas, outros nem por isso mas todos estão rodeados de uma enorme tensão e ficamos sempre com a sensação de que a derrota se encontra à distância de uma má decisão.

Sem desvendar demasiado a história podemos escrever sobre um dos mais impactantes encontros que tem lugar no início da aventura. Numa altura em que o “Comitatus” atravessa um deserto, um dos guerreiros detecta algo ao longe e de imediato lança-nos um olhar de pânico colocando o grupo em alerta e a adoptar posições defensivas.

Quando ele se aproxima de nós informa-nos que viu ao longe a temível “The Last Pilgrimage“, um grupo de fantasmas que vagueia por aquelas terras e que tem a reputação de dizimar viajantes numa questão de minutos.

De imediato forma-se uma enorme tensão no ar e quando lemos mais sobre a história destes fantasmas conseguimos perceber o nível de terror que eles têm vindo a espalhar neste mundo, porque são muito poucos aqueles que sobrevivem ao seu encontro. Somos confrontados com uma decisão, podemos iniciar uma fuga ou encontrar um local para nos escondermos por entre as dunas.

Todo o encontro é realizado em texto com a ajuda de alguma ilustração e banda sonora, no entanto a descrição do momento está tão bem escrita que facilmente conseguimos perceber a magia deste jogo. No final não houve sequer combate, mas quando tudo acabou demos por nós a respirar fundo e a sentirmos o alívio da pressão causada por este momento.

E de realçar que isto é só um pequeno vislumbre do que o jogo tem para oferecer neste departamento.

Ilustração de qualidade e uma banda sonora que nunca se impõe

blank

Vagrus é uma experiência surpreendentemente atmosférica e se é verdade que a qualidade do texto e de toda a história deste Universo peculiar contribuem muito para isso, também é verdade que visualmente e do ponto de vista sonoro ele não desilude.

As ilustrações são absolutamente fantásticas e ajudam a dar vida ao mundo que nos rodeia, a banda sonora não se impõe e nunca estende demasiado a sua presença limitando-se a complementá-la nos momentos chave do jogo.

Aliás, por vezes quando ficamos demasiado tempo a ler a informação que nos é facultada somos presenteados com silêncio. É estranho quando o silêncio está associado a um videojogo, mas não nos podemos esquecer que Vagrus é também uma experiência de leitura e o silêncio também contribui para a imersão.

O combate por turnos

blank

Sempre que um encontro se torna violento a jogabilidade passa para um jogo de combate por turnos. À nossa disposição temos elementos do “Comitatus” e devemos fazer uso das suas habilidades para vencermos o confronto.

O combate por turnos possui mecânicas simples para quem já está habituado ao género e fáceis de perceber até para os mais novatos. Mas como em tudo o resto nesta experiência, não existem combates fáceis e um pequeno erro na estratégia resultará na derrota.

O jogo aconselha a que os jogadores gravem com frequência e isso deve-se ao facto de se perder também com muita frequência em Vagrus, especialmente em combates. Enquanto “Vagrus” nós não participamos directamente no combate, apenas dirigimos as nossas “peças no tabuleiro” e nesta medida não só é importante conhecer bem as regras como os nossos companheiros no “Comitatus”.

Membros mais fortes e com talento para o combate corpo-a-corpo devem liderar a ofensiva enquanto aqueles que curam ou podem lançar habilidades poderosas devem ficar protegidos na retaguarda. Mais uma vez, não é nada a que os veteranos não estejam habituados, mas a dificuldade encarrega-se de elevar bastante o desafio.

É importante realçar que toda a jornada tem um impacto nos membros do “Comitatus”, o que significa que a fome, o cansaço ou ferimentos não só tornam a jornada mais difícil como também os combates. Não é raro entrarmos em combate com os nossos elementos mais fortes já debilitados e escusado será dizer que não é fácil vencer estando em desvantagem.

Negociar, gerir, transportar passageiros e muito mais

blank

Um “Vagrus” lidera o seu “Comitatus” através de viagens perigosas mas que também podem ser muito lucrativas. Há dinheiro para ser ganho por aqueles que se aventuram pelo “The Riven Realms” seja através de troca de materiais, transporte de passageiros e todo o tipo de trabalhos que envolvem incursões por território perigoso.

Não “existem almoços grátis” e tudo neste jogo envolve ganhos, sejam eles monetários ou até sociais. Estabelecer boas alianças é quase tão importante como ganhar dinheiro e um pequeno favor pode trazer benefícios mais tarde.

No entanto o risco está sempre presente e é demasiado fácil criar inimigos mortais durante a aventura. Aliás nós diríamos mesmo que uma percentagem do sucesso está intimamente ligada com a forma como nos relacionamos com as personagens que vamos encontrando pelo caminho.

Simples no conceito e na abordagem, brilhante na aplicação

blank

Vagrus tem muito para oferecer, há tanta riqueza na história que nenhuma análise é capaz de lhe fazer jus. Tornou-se óbvio na nossa experiência que se trata de um projecto muito especial e até audacioso na medida que é um jogo de “nicho”.

Gostar de Vagrus é no fundo gostar do género RPG em toda a sua pureza; é apreciar e desfrutar do tempo despendido na consulta da informação que nos dá a conhecer um pouco melhor o mundo que nos rodeia; é apreciar a dificuldade por vezes imperdoável e injusta mas continuar a tentar; é compreender a beleza da gestão de recursos e de pessoas.

Nenhuma viagem é igual neste jogo e embora um grande número delas termine em tragédia, todas são memoráveis.

Última atualização: Fevereiro 3, 2022 às 08:24

Vagrus é uma aventura atmosférica, envolvente e desafiante

Vagrus é sem dúvida um jogo especial porque tem a capacidade de nos transportar e envolver na história de um Universo que é simultaneamente imperdoável e fascinante. A história e as personagens são sólidas e a cada nova jornada tudo pode mudar.

8.5
Recomendado:
8.5
blank
Paulo Figueiredo

O Figueiras é um elemento fundamental da Gaming Portugal e a figura mais respeitada da equipa. A sua vida atarefada impede-o de acumular uma posição de maior destaque. A sua participação na Gaming Portugal é motivada principalmente pelo gosto por gaming e dá-lhe um prazer especial saber que nesta casa a “independência” é uma característica definidora.

blank
Ary Costa

Ele foi a força fundadora por detrás da Gaming Portugal e conseguiu reunir uma equipa competente e unida. É um elemento que trabalha nos bastidores mas também publica artigos no website.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *